Danilo R. Vieira | Oceanógrafo

Aqui estão algumas das coisas que eu aprendi, descobri ou fiz (por obrigação ou por diversão). Espero que encontre algo que seja útil para você.

Material -> IOB 0132 -> Relatório do Trabalho de Campo

Relatório do Trabalho de Campo: Bertioga, novembro de 2007

Relatório elaborado pelos alunos Carine de Godoi Rezende Costa, César Barbedo Rocha, Danilo Rodrigues Vieira, Luis Fabiano Baldasso, Juliana dos Santos Ribeiro, Natália Tasso Signorelli, Patrícia Martins Sparagna, Renan Kuwana, Roberto Tomazini de Oliveira e Ronaldo Mitsuo Sato em 2007 como parte da disciplina IOB 0132 – Produtores Primários Marinhos, ministrada no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.

Introdução

No dia 13 de novembro de 2007 foi feita uma viagem de campo para Bertioga-SP, com o objetivo de caracterizar um bosque de mangue da região. Para a caracterização, foram usadas as áreas basais e densidades das espécies.

Antes de descrever a metodologia utilizada e os resultados obtidos, apresentamos, com o intuito de contextualizar e enriquecer o trabalho, algumas informações que julgamos importantes sobre manguezal.

1.1 O ambiente

“Denomina-se manguezal a comunidade vegetal que se estende ao longo da zona costeira exposta aos processos transicionais do ambiente marinho, estuarino e lagunar, com alternância de inundações derivadas da atuação das marés em regime mixohalino.” (HERZ, 1991).

Os manguezais ocorrem em regiões onde a temperatura da água não fique abaixo de 17–18 °C e haja abundante suprimento de nutrientes vindos do escoamento superficial e da água do mar adjacente. Normalmente, mangues crescem mais em regiões de água calma, em que as marés moderadas provocam variações de salinidade que são contornadas pelas plantas por diferentes adaptações, como as glândulas de excreção de sal localizadas na epiderme das folhas e/ou filtros na raiz que impedem a entrada do excesso de sal.

As características geológicas também são importantes para o manguezal. Em geral, eles desenvolvem-se mais em planícies costeiras de baixa declividade ou vales alagados limitados por baixios, estuários ou deltas que transportam águas ricas em materiais em suspenção. A baixa declividade é importante, pois permite a acumulação de detritos orgânicos e argilosos enquanto que o fluxo e o refluxo de água é responsável pela reciclagem parcial de nutrientes minerais e compostos orgânicos e a formação de substrato apropriado.

De acordo com Jimenez apud Coelho-Jr (2003) os bosques de mangues podem ser classificados em duas zonas distintas de acordo com a freqüência de inundação pelas preamares, o efeito da chuva e da drenagem continental:

1.2 As espécies

Manguezais têm como característica apresentarem baixa diversidade de espécies, desta forma, são constituídos por um grande número de indivíduos de cada espécie. Essas espécies geralmente são lenhosas e perenifólias, ou seja, suas copas estão sempre verdes. No trabalho que motiva o relatório, encontramos três gêneros: Avicennia, Laguncularia e Rhizophora.

1.2.1 Avicennia sp.

[Fig. 1: Avicennia sp.]
Figura 1: À esquerda: Avicennia sp.; à direita: detalhe da flor.

Apresenta folhas simples, opostas e pecioladas, folhas brancas agrupadas e terminais. Suas raízes são radiais e emitem prolongamentos com geotropismo negativo chamados pneumatóforos, que podem chegar a 20cm ou mais de altura e apresentam lenticelas, denominadas pneumatódios, para aumentar a capacidade de trocas gasosas.

1.2.2 Laguncularia sp.

[Fig. 2: Laguncularia sp.]
Figura 2: Folhas de Laguncularia sp. com pecíolo vermelho.

Possui pecíolo vermelho; suas folhas são opostas e cruzadas; apresenta glândulas vestigiais de néctar e pneumatóforos. Apresenta também flores pequenas e numerosas. O sistema radicular é semelhante ao da Avicennia, porém com menos pneumatóforos.

1.2.3 Rhizophora sp.

[Fig. 3: Rhizophora mangle]
Figura 3: À esquerda: Rhizophora mangle e sua gema apical protegida por espícula; à direita: lenticelas em raíz escora.

Apresenta gema apical protegida por estípula e possui raízes escora, os rizóforos, com lenticelas. Apresentam também folhas simples opostas, pecioladas, flores pequenas com quatro pétalas branco amareladas, de duas a quatro flores por talo, raízes escora com lenticelas, que aumentam a área para as trocas gasosas. Suas sementes iniciam o desenvolvimento ainda presas à planta-mãe, formando um propágulo. Também é conhecida pela denominação mangue vermelho, por conter uma substância vermelha de natureza polissacarídica, o tanino.

1.2.4 Spartina sp.

[Fig. 4: Spartina sp.]
Figura 4: Spartina sp.

Apesar de Spartina sp. ser um gênero típico de salt marsh, foram encontrados alguns indivíduos na região estudada. As plantas deste gênero são caracterizadas por serem monocotiledôneas, pertencentes à família Gramineae e possuírem um rizoma bem desenvolvido. São as primeiras a colonizarem o ambiente, fixando o sedimento e propiciando o desenvolvimento das demais espécies.

1.2.5 A fauna associada

Dos diversos animais que habitam os mangues, destacam-se os carangueijos que vivem nos fundos lodosos e há também moluscos, como a Littorina sp., e peixes, que entram no manguezal na maré alta. Alguns dos animais encontrados durante o estudo estão representados na Figura 5.

[Fig. 5: fauna associada ao mangue]
Figura 5: A fauna associada ao manguezal. Na linha superior, à esquerda: Littorina sp. sobre folha de Laguncularia; à direita: carangueijo chama-maré (Uca sp.). Na linha inferior, à esquerda: tronco de Laguncularia com tubos de teredo (molusco); à direita: Aratus sp. sobre tronco de Rhizophora.

2 Caracterização de um bosque de mangue

2.1 Área basal e densidade

2.1.1 Método

Inicialmente, foi delimitada uma área de 10 ×10m onde foi realizada a coleta. Foi feita a identificação das espécies.

Foi feita a contagem dos indivíduos e, concomitantemente, foi feita a medida do diâmetro na altura do peito (DAP) a partir do perímetro (P), sendo:

\[ DAP = \frac{P}{\pi} \]

então, calculou-se a Área Basal (AB) de cada indivíduo:

\[ AB = \pi r^2 = \pi \left( \frac{DAP}{2} \right)^2 \]

finalmente, foi calculada a área basal total para cada gênero (ABtotal ), dada por

\[ AB_{\text{total}} = \sum\limits_{i=1}^n AB_n \]

e a densidade (D), dada por:

\[ D = \frac{n}{A} \]

em que n é o número de indivíduos de um certo gênero e A é área do transecto estudado (100m²).

2.1.2 Resultados

Utilizando-se o método descrito na seção anterior, foram feitas as Tabelas 1, 2 e 3 contendo os dados para o cálculo da área basal; também foram feitos os boxplots da Figura 6, que comparam a área basal individual para cada um dos gêneros; por fim, foi feita a Tabela 4, contendo as áreas basais totais para cada um dos gêneros estudados.

[Tabela 1]

[Tabela 2]

[Tabela 3]

[Fig. 6]
Figura 6: Boxplots para comparação entre as áreas basais dos gêneros, gerados pelo MATLAB® 7

[Tabela 4]

2.2 Herbivoria

2.2.1 Método

Foram coletadas 5 folhas de cada uma das três espécies de mangue identificadas na área delimitada. As folhas foram colocadas sobre papel milimetrado e então o conjunto foi fotografado. Desta forma foram obtidas três fotos (uma para cada gênero) (Figura 7); de cada uma dessas fotos foram geradas duas imagens: uma contendo o contorno das folhas como foram coletadas (Figura 8) e outra contendo o contorno das folhas reconstituidas digitalmente, obtendo-se então seis imagens em preto e branco. Essas imagens foram tratadas em software matemático para obtenção da área de cada folha em milímetros quadrados (Figura 9). A seqüência de figuras de 7 a 9 ilustra o processo para Avicennia, sendo que figuras análogas foram utilizadas para os demais gêneros.

[Fig. 7]
Figura 7: A fotografia original das folhas de Avicennia sobre papel milimetrado.

[Fig. 8]
Figura 8: A imagem gerada pelo Adobe® PhotoShop® CS2 contendo o contorno das folhas.

[Fig. 9]
Figura 9: A imagem gerada pelo MATLAB® 7 indicando as áreas das folhas em mm².

2.2.2 Resultados

Com as áreas calculadas conforme descrito na Seção 2.2.1, foram feitos a Tabela 5, com o total de cada gênero, e os boxplots da Figura 10, baseados nos dados individual de cada folha.

[Tabela 5]

[Fig. 10]
Figura 10: Boxplots para comparação da área individual das folhas entre os gêneros, gerados pelo MATLAB® 7

3 Discussões e conclusões

Após a análise dos dados, pode-se concluir que o gênero Rhizophora é, como esperado, o que apresenta maior densidade na área de estudo além de maior área basal total, pois Rhizophora sp. é uma espécie que coloniza tipicamente regiões como a estudada: zonas externas, com grande intercâmbio de água e concentração de sal não muito elevada. Espécies como Avicennia sp. e Laguncularia sp., mais tolerantes ao sal, predominam em substratos mais elevados.

Dentre os exemplares de plantas de manguezal observados, infere-se que as do gênero Avicennia são as que apresentam maior taxa de herbivoria (3,27%), enquanto Laguncularia apresenta a menor (3,04%). Entretanto, a diferença entre esses valores é pequena e o número de folhas amostradas também é reduzido, o que torna difícil depreender maiores informações sobre o ambiente.

Referências

CARMO, T. M. S. et al. Conhecendo o manguezal: Material didático. 2a. ed. Vitória, ES: FCAA, 1996.

COELHO-JR, C. Ecologia de manguezais: zonação e dinâmica da cobertura vegetal em gradientes ambientais, Cananéia, São Paulo, Brasil. 166 f. Tese (Doutorado em Ciências) — Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, São Paulo, nov. 2003.

HERZ, R. Manguezais do Brasil. São Paulo: Edusp, 1991.

RODRIGUES, S. de A. O Manguezal e sua Fauna. 1995. Disponível em: <http://www.usp.br/cbm-/artigos/mangue.html>. Acesso em: 27 nov. 2007.

SOUSA, E. C. P. M. Produtores Primários Marinhos. 2007. Notas de aula.

VANNUCCI, M. Os Manguezais e Nós. Tradução de Denise Navas-Pereira. São Paulo: Edusp, 1999. 233 p. ISBN 85-314-0466-5.